segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Sonia, por ela mesma

Desde criança, Sonia já consumia revistas em quadrinhos de acordo com sua idade. Mas, ao contrário de outras meninas de sua convivência, que iam largando os “gibis” na adolescência e os trocavam por fotonovelas e outras publicações, Sonia continuou lendo quadrinhos. Mais tarde, enquanto era aluna da Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, foi convidada pelo Jornal da Tarde para traduzir as tiras de quadrinhos, revolucionárias para a época como Charlie Brown, AC., Zé do Boné e Feiticeiro. Logo depois, já estava traduzinho o Tintin para o Estado de São Paulo. Ao longo de seu curso de Jornalismo, foi frequentando todos os eventos ligados às HQ, inclusive, o Congresso Internacional de HQ no MASP, em 1970. Foi lá que ela conheceu o autor do Fantasma e Mandrake, Lee Falk.
Dois anos depois, em 1972, foi contratada pela Escola de Comunicações e Artes da USP para lecionar a matéria Editoração de HQ. Foi então que ela engendrou a revista experimental que ficaria famosa na história editorial de HQ no Brasil: a Quadreca. Fundou, também, o primeiro museu de quadrinhos do Brasil, chamado Júlio de Mesquita Filho por causa de uma grande doação que tinha sido feita para a ECA/ USP. Durante todo o tempo em que lecionou na ECA, Sonia participou ativamente de todos os eventos ligados ao setor. Um deles, foi o nostálgico Congresso de HQ de Avaré, onde ela apresentou seu primeiro “paper” referente aos Mangá e conheceu Will Eisner, que chegou a propor uma obra de quatro mãos a respeito do assunto. Os rumos, porém, foram outros e Sonia Luyten continuou ativamente batalhando pelo assentamento do quadrinho nacional, através de diversos artigos na imprensa e participação de congressos e reuniões de desenhistas.
Uma de suas atuações da época foi lecionar, além da ECA, na escola RIAN, organizada pela dupla JAL-GUAL (José Alberto Lovetro e João Gualberto Costa) que se tornaram famosíssimos daí por diante. Nessa época, Sonia já era amiga de grandes desenhistas e pesquisadores como Jayme Cortez, Maurício de Sousa, Álvaro de Moya e Antonio Cagnin. Havia, também, manifestações artístico-políticas como o CARBONO-14, em que alguns desenhistas como Xalberto, Sian, Jal e Gual, chegaram a produzir a maior HQ de todos os tempos. Isso porque seus desenhos ocupavam as paredes de uma escadaria de um prédio de vários andares. Seus contatos com os quadrinhos orientais também começaram na ECA, em 1976, quando foi editado um dos números da Quadreca dedicado aos Mangás. A partir disso, formou-se uma Associação de Amigos de Mangá e um pequena coleção de HQs japonesas. Esta agremiação fundiu-se em 1984 com uma exposição de Mangá no Bunka e formou-se a ABRADEMI, cujos diretores foram Francisco Noriyki Sato, Roberto Kussomoto, Cristiane Sato além da própria Sonia. Nem por isso Sonia esqueceu-se do quadrinho brasileiro e internacional. Em 1982 publicou seu primeiro livro sobre HQ, juntamente com seus alunos de pós-graduação na ECA, chamado Histórias em Quadrinhos – Leitura Crítica. Logo depois, saiu uma outra obra sua, desta vez na Coleção Primeiros Passos e chamou-se O Que É História em Quadrinhos. Ambas as obras tiveram diversas edições.
De movimento em movimento, de manifestação em manifestação, os anos foram-se passando e, em 1984, Sonia Luyten foi contratada para ser professora-visitante da Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka, Japão. Foi lá que ela realmente pôde entrar em contato com a produção dos quadrinhos japoneses e seus grandes autores. Em pouco tempo, ficou conhecendo T.Yanase que a convidou para o Festival de Mangá de Osaka. Logo depois, tornou-se amiga de Tesuka Osamu, Yumiko Igarashi e muitos outras estrelas da constelação mangá. Como professora de Cultura Brasileira, Sonia procurou divulgar todos os aspectos do Brasil, inclusive, as histórias em quadrinhos.

Foi no Japão que Sonia completou sua tese de doutoramento para a USP e veio defendê-la em 1988. Em seguida, foi agraciada com o Prêmio Romano Calisi, concedido pelo Festival de Quadrinhos de Lucca. E lá se foi ela para a Itália a fim de receber seu prêmio em 1990. Logo depois, o trabalho foi publicado no Brasil com o título Mangá – o poder dos quadrinhos japoneses e esgotou-se a primeira edição. Sonia nunca perdeu o contacto com os quadrinistas brasileiros. Todos os anos, ela voltava ao Brasil e aqui participava de congressos, salões (como membro de júri) e reuniões.
Em 1991, a família Luyten se transferiu para a Holanda e lá foi outra agitação, desta vez com os quadrinhos europeus. Ela organizou várias mostras de arte sequencial e cartuns brasileiros, tanto no Salão de Haarlem como na Universidade Real de Utrecht, onde lecionou durante vários anos. Chegou a levar desenhistas famosos como Teo van den Boogaard, Pontiac (Holanda) e Charles Jarry (Bélgica) para o I Salão Internacional de quadrinhos do Rio de Janeiro. Depois, foi convidada diversas vezes a participar do Festival de Quadrinhos de Amadora (Portugal), onde representou, alternadamente, o Brasil, a Holanda e a Índia. (outra paixão quadrinística). Sonia desta forma iniciou os contatos entre Brasil e Portugal e até hoje os desenhistas brasileiros expõem no Festival de Amadora. Em 1998 foi lecionar na Universidade de Poitiers, na França e participou duas vezes do Salão de Angoulème. Na cidade do Recife participou desde o início do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos dando palestras, oficinas e como membro de juri.
Não houve mais contatos lá porque a saudade do Brasil foi aumentando e em 2000 Sonia acabou voltando definitivamente para São Paulo e São Vicente, onde mora de frente para o mar e passou a participar de todos os eventos ligados aos quadrinhos e cartuns. Logo recebeu seu terceiro prêmio HQ MIX e outro da ABRADEMI. Em 2006 recebeu o prêmio Angelo Agostini na categoria Mestre em Quadrinhos.
Em 2005 publicou o livro Cultura Pop Japonesa: animê e mangá, pela Editora Hedra e muito mais artigos e prefácios de livros.
Foi professora de pós-graduação na Universidade Católica de Santos, Coordenadora do Mestrado em Comunicação, (2000-2005), dando aulas,conferências, participação de bancas, redação de artigos, palestras, enfim, o que possa estar ligado à arte sequencial e cartuns.

É colaboradora do site www.universohq.com onde tem duas colunas "Quadrinhos pelo Mundo" onde relata como houve o aparecimento e desenvolvimento das Histórias em Quadrinhos em vários países pelo mundo e a outra, Banca de Teses onde dá visibilidade as teses acadêmicas de TC, Mestrado e Doutorado sobre quadrinhos e Humor Gráfico.

6 comentários:

Túlio Vilela disse...

Oi, Sonia! Que legal, encontrar um blog seu! Espero encontrar novas postagens.
Um grande abraço!

DanielHDR disse...

SÔNIA! :) TE ACHEI, GURIA!
É DanielHDR! Precisamos retomar contato!
Abraço!

I'm a Rock disse...

Sonia, procurei ver se vc tinha um blog e achei! Vou deixar o link lá no meu.

Abraço!

Victor Maia, do fanzine Atum de BH

Kaorí disse...

Oi, Sônia,
sou amiga da Chantal (Tirinhas Juventude MG) e sinto por não ter assistido sua palestra no FiQ.
Estou pesquisando "As meninas Superpoderosas" e a influência do mangá sobre elas.
Se não for te incomodar eu gostaria de algumas opniões suas sobre as meninas.
E de qualquer forma, muito obrigada escrever livros e artigos. Eles mostram que quadrinho é coisa séria.

Valéria disse...

Sônia,

Sou aquela engenheira do interior de SP que esteve hoje no Centro Cultural da Juventude.
Chegando ao hotel fui procurar seu blog e assim externar meu encantamento por esse mundo fascinante dos mangás, HQ, que você tão bem divulga, participa, estuda, contribui, enriquece,.....
Obrigada pela oportunidade que nos deu de ouvi-la,embora por escasso tempo, sobre o assunto.
Parabéns!!!!!

Anônimo disse...

Prezada Sônia, onde atualmente está lecionando? Lembra-se daquela pessoa que solicitou uma cópia do seu livro para xerocar do Amapá. Espero que seu livro tenha retornado de forma adequada. A mesma pessoa está passando por problemas de orientação de TCC, e estava pensando sobre várias possbilidades, inclusive até de pedir que a orientasse...
Por favor, escreva para gilberto_yokomizo@yahoo.com.br

Agradeço